relato de uma jurua sobre a cerimônia que teve o privilégio de participar
Receber o convite para participar de uma cerimônia Guarani sempre me enche de alegria. São momentos de muita espiritualidade, singeleza e beleza. Entre 14 e 15 de março de 2020 fui convidada a participar da cerimônia
Ei'i Mbojape na
tekoa de Palmeirinha do Iguaçu, TI de Mangueirinha, município de Chopinzinho - PR.

A manhã começa com as
Kunhã kuery (mulheres) em torno do pilão, socando o
avaxi hete'i (a variedade do milho certo para a cerimônia) para a base do
mbojape (bolo de milho): jovens, adultas, anciãs em animadas conversas; do pouco que consigo entender e do que me contam [as conversas são na língua Guarani, que infelizmente não domino], os assuntos são de que o 'socar no pilão' é a academia das Guarani, tem um jeito certo de se posicionar, de levantar a mão de pilão, do ritmo; isso dá o condicionamento físico das mulheres... E sempre, muitas risadas. Por outro instante, um ar mais sério, a conversa gira em torno de 'ser mulher'; que tem perigos, que é preciso ter atenção com as 'pequenas mulheres'; que as coisas já não são mais como eram nos tempos antigos...
A conversa volta a ficar animada, as anciãs pedem para as jovens também aprenderem a socar o
avaxi hete'i; risadas, porque as mais jovens tem menos resistência que as mais velhas. Cobranças: os celulares tiram a vontade das jovens de aprender [risadas]. Me permitem aprender/tentar! Concordo, é uma academia de bastante impacto! [Risadas...]
O sol avança no céu, parte do
avaxi hete'i já virou farinha, então um grupo de senhoras parte para o fazer os bolos. São amassados, moldados e colocados para assar na cinza no chão da
Opy'i (casa de reza). O calor é forte, a fumaça faz os olhos lacrimejarem; mas as senhoras, estão lá, firmes no seu fazer! Algumas jovens aparecem para aprender... Prática, conhecimento, dedicação que passa pelas gerações: lindo de ver e sentir!
Em outra frente, os
Avá kuery (homens) foram na floresta, coletaram o
ei'i (mel das abelhas nativas) e agora estão do lado de fora da
Opy'i enchendo seus
Takua ruxu (canudos de taquara ou purungos). Para cada pessoa do sexo masculino da família um
takua ruxu de mel; para cada pessoa do sexo feminino da família um
mbojape.
O sol no centro do céu, tudo pronto, hora de entrar na
Opy'i, cada um levando seu
takua ruxu ou
mbojape; logo o som da
mbaraka,
mbaraka miri,
rave'i, angu'apu e
mais tarde se juntam os
takuapu enchem o espaço. As oferendas depositadas no altar, devidamente nominadas e abençoadas; aos poucos a fumaça dos
petygua (cachimbo Guarani) se espalha, preenche o espaço e as palavras do
Xamoi chegam às mentes e corações dos presentes. Não encontro palavras para descrever, é preciso estar, vivenciar e sentir.
Anciãos, adultos, jovens, homens, mulheres, convidados, todos tem um momento para falar. É comunhão, interação, respeito, admiração: unidade.
O coral canta os
mboraei, o
Xamoi fala, os participantes usam o
petygua,
tataxinã (fumaça) inunda o ambiente e as mentes; os pensamentos como que decolam, seguem e voltam. Corpo, alma e natureza: comunhão! Minutos, horas passam...
Tataxinã se esvai...
mboraei ressoam apenas na memória... Hora da pausa... Agora alguns vão, outros ficam, a cerimônia seguirá quando o sol tiver se posto no horizonte.
O sol se pôs, o som da
mbaraka,
mbaraka miri,
rave'i, angu'apu anunciam que é hora de voltar para a
Opy'i. O
Xamoi já está lá com seu
petygua; temos ensinamentos, reflexões, cantos, ensinamentos, reflexões... Curas... União... Comunidade... O
Nhandereko está vivo, pulsante! Horas passam,
tataxinã preenche o espaço e também as mentes.
Em ato de limpar o corpo, proporcionar resistência, curar dores inicia a
Tarova'i; principalmente os jovens participam da dança, o
Xamoi conduz, todos apoiam, acodem, cantam; de alguma forma, participam. A vibração de força e comunhão estão e são a
tataxinã... Mais uma vez, me faltam palavras, é preciso estar, vivenciar e sentir...
Alguns continuam por mais algumas horas na
Opy'i, outros vão para suas casas e outros ainda amanhecem na Opy'i.
Quando o sol da manhã desponta no horizonte, hora de se reunir novamente na
Opy'i, a água já está quente, o chimarrão passa de mão em mão; a
Opy'i vai enchendo, enchendo... O
Xamoi faz a reflexão, a benção final e os
Mbojape com o
Ei'i são distribuídos; a refeição da manhã é o ato final dessa cerimônia de agradecimento, cura e partilha.
Ha'eve tema!
por Ara Ju (Sandra König)